2. E essa história de que a mídia manipula?

Miguel Ugalde / Freeimages

Neste módulo, nós vamos discutir o poder da mídia, qual a extensão desse poder e o que nós, que recebemos as informações, podemos fazer para ter uma relação madura com os meios de comunicação. No texto-base, discutiremos o que se sabe hoje sobre manipulação na comunicação. Apresentaremos a ideia de que cada um dispõe de competências para interpretar as mensagens. Teremos um vídeo com exemplos de quando a audiência surpreende e não segue as reações esperadas pela mídia. E você também vai entender por que algumas pessoas têm a tendência de se deixar levar por mentiras. É a psicologia do engano. Por fim, um guia prático com dicas para postar nas redes sem manipulação – e sem ser manipulado.

Caramba… foi bem mals
Caramba… foi razoável
Caramba… foi muito bem

No dicionário, o sentido literal de manipular é “moldar com mão”. Como faz a pessoa com a massa da foto acima.

Mas será que dá para falar de manipulação em outro contexto? A mídia manipula as notícias e os leitores?

Ou é neutra, imparcial?

Ou já não tem nenhuma força?

Ou ainda, nenhuma das anteriores?

Vamos começar pelo básico: não dá para falar de manipulação sem discutir, mesmo que brevemente, o que é comunicação.


O que é comunicação

Pode-se dizer que a comunicação é uma ação humana que significa “tornar comum”, como indica a origem da palavra, derivada do latim communicationem. Em geral, torna-se comum alguma informação – ou seja, informa-se algo a alguém.

O processo pode ser resumido com um esquema visual:

Emissor → mensagem → Receptor

                         (canal)

O emissor é quem transmite a informação (a mensagem). Ele ou ela faz isso por meio de um canal, que pode ser uma mídia impressa (jornal, revista), eletrônica (rádio, TV, internet e rede social) ou a própria mídia humana (a voz). Encontra, na ponta final, um receptor (eu e você, indivíduos que em conjunto formam a audiência, o público).

Mostrando desse jeito, parece um processo neutro e impessoal. Não é bem assim. Como nos lembra o pesquisador Venício A. de Lima, referência nos estudos de comunicação no Brasil, o próprio significado da palavra comunicação carrega uma ambiguidade. No livro Teoria e Política, ele escreve:

“A ação de tornar comum a muitos pode ser resultado tanto de uma transmissão quanto de um compartilhamento, que são polos opostos de uma ação de comunicar. A distinção pode ser feita identificando-se, de um lado, uma comunicação manipulatória e, de outro, uma comunicação participativa.”

Manipulação, participação ou algo entre os dois polos? O caráter que a comunicação vai assumir depende, especialmente, do papel que nós, usuários ou receptores, vamos desempenhar. Estamos falando da recepção.

Recepção neutra

Na história das teorias da comunicação, a primeira noção a surgir foi a da recepção neutra, que se apropria de conceitos da matemática e da indústria de telecomunicações. É obra de dois engenheiros, Shannon e Weaver, dos laboratórios da Bell Telephone, nos Estados Unidos, em 1947.

O esquema emissormensagemreceptor é encarado como se fosse uma transmissão de dados entre máquinas: tanto emissor quanto receptor seriam neutros, e o conhecimento poderia ser definido como acúmulo de informação mais classificação.

Entre os estudiosos, é uma ideia superada. Mas ainda hoje, notamos seus ecos no discurso publicitário dos meios de comunicação, com a ideia da chamada “mídia neutra”, “imparcial”, “objetiva”.

Hoje sabe-se que a neutralidade é um mito. E isso não necessariamente por causa de motivações ideológicas, políticas e econômicas – ou seja, fatores externos à produção de notícias. Tudo isso, claro, pode existir. Mas, mesmo que não existisse, a objetividade é impossível de se atingir na prática. Como diz Clóvis Rossi no clássico O Que é Jornalismo:

“Entre o fato e a versão que dele publica qualquer veículo de comunicação de massa há a mediação de um jornalista (não raro, de vários jornalistas), que carrega consigo toda uma formação cultural, todo um background pessoal, eventualmente opiniões muito firmes a respeito do próprio fato que está testemunhando.”

Dá para comparar um relato jornalístico a uma fotografia. Se o fotógrafo for bom, a imagem vai trazer vários elementos: pessoas em primeiro plano, uma paisagem ao fundo, detalhes nas laterais e assim por diante. Mas sempre haverá várias coisas fora do enquadramento. Ocorre o mesmo com as notícias. Sem esquecer outro detalhe importante: na foto, o que vai ser fotografado depende do olhar do fotógrafo, que seleciona o que vai emoldurar. Na apuração e na escrita da notícia, também.

Recepção passiva

Essa noção considera os emissores todo-poderosos e os receptores altamente influenciáveis. A corrente mais conhecida a defender essa noção foi a teoria crítica, elaborada pelos pesquisadores da Escola de Frankfurt, na Alemanha dos anos 1940.

Seus principais formuladores, Theodor Adorno e Max Horkheimer, formulam a ideia de manipulação em um contexto bem específico: eles alertavam para a utilização do rádio, cinema e jornais como armas de convencimento ideológico pelo nazismo.

Mas, posteriormente, seus conceitos ficaram associados à ideia de que os meios de comunicação são apenas instrumentos de controle e manipulação do pensamento coletivo, que representam tão somente a ideologia dominante, absorvida sem questionamento por uma massa de espectadores.

Esse também é um entendimento bastante polêmico sobre o ato de se comunicar. Pesquisas posteriores mostraram que os receptores têm papel importante: são capazes de fazer suas próprias interpretações, que no limite podem rejeitar por completo a mensagem da mídia.

Recepção ativa

Qual o significado que as audiências efetivamente constroem com as mensagens da mídia? A mudança de perspectiva quanto à recepção fica clara na pergunta fundamental que os novos estudos se propõem a responder. Com essa indagação central, os pesquisadores do Centro para Estudos de Cultura Contemporânea (CECC), em Birmingham, na Inglaterra, lançam entre os anos 1950 e 1970 uma linha de pesquisa que ficou conhecida como estudos culturais. Hoje, a noção da recepção ativa é a mais aceita nos estudos da área.

Considerar o receptor como capaz de formular suas próprias interpretações significa aceitar duas outras ideias. A primeira: o conteúdo veiculado pelos meios de comunicação é polissêmico – ou seja, possui diversos significados. Os entendimentos variam de circunstância para circunstância, e de receptor para receptor.

A segunda: o discurso dos meios de comunicação é construído a partir de interações entre diversos atores sociais. Quer dizer o seguinte: ouvimos, lemos ou vemos algo na mídia, mas não necessariamente formamos opinião apenas com esses atos. O mais comum é comentarmos com outras pessoas, ler outros textos, debater com parentes e amigos etc.

A terceira: a recepção é um processo e não um momento. Como dissemos, não é só na hora do telejornal ou na leitura do textão no Facebook que formamos uma ideia (positiva, negativa etc.) sobre o que acabamos de ver. A opinião nasce depois de um período de reflexão – que inclui, como mostramos no ponto anterior, interações sociais.

Voltando à pergunta: a mídia manipula, é neutra ou não pode nada?

A noção de recepção ativa propõe a ideia de que o ato de comunicar não é manipulação, nem neutro, nem sem efeito. O ato de comunicar é uma negociação. O emissor propõe um sentido para a mensagem, que pode ser aceito, rejeitado ou retrabalhado pelo emissor depois de um processo de reflexão que inclui trocas com outras pessoas, grupos e instituições.

Com isso em mente, pode-se afirmar que o poder da mídia é relativo. Na “batalha por corações e mentes”, ela trava uma luta simbólica com outras instituições – por exemplo: religião, escola, família, grupo de amigos etc. – pela validação das informações e opiniões que transmite.

Também não significa que o poder simplesmente migrou de polo. Dizer que o receptor é ativo significa reconhecer, também, que seu poder é limitado. Isso quer dizer que sua capacidade de interpretação e ação é influenciada por suas condições socioculturais: escolaridade, competência para o diálogo, familiaridade com a produção midiática e assim por diante. Por essa razão é importante trabalhar a alfabetização midiática, como tentamos fazer ao longo deste curso.

FONTES / PARA SABER MAIS

Quem quiser se aprofundar pode consultar essas obras clássicas da pesquisa em comunicação:

CITELLI, A. Comunicação e educação: a linguagem em movimento. Senac, 1999.

LIMA, V. A. D. Mídia – Teoria e Política. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

MATTELART, A.; MATTELART, M. História das teorias da comunicação. Edições Loyola, 2011.

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Caramba… foi muito bem

Quando tentamos nos expressar, nem sempre conseguimos prever os efeitos de nossas palavras. Como explicado nesse vídeo, nem sempre as intenções levam ao resultado esperado. Afinal, nem todo mundo entende uma mesma mensagem do mesmo jeito – e isso é algo que nem sempre levamos em consideração.

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Você pensou em algo “genial” sobre política, economia ou mesmo a vida dos outros e quer postar imediatamente nas redes sociais. Ou leu um texto e está louco para colocar sua opinião na caixa de comentários. Ótimo, liberdade de expressão existe para isso mesmo.

Mas toda liberdade pressupõe responsabilidade, então você é o responsável social e legal por aquilo que posta. Sugestão: siga esse passo a passo que organizamos para que ninguém depois reclame que você é sem-noção por ter usado seu direito à opinião para espalhar chorume por aí.

“ESTOU COM VONTADE DE COMENTAR UMA NOTÍCIA, E AGORA?”

1) Você leu o texto inteiro, e não apenas viu o título e a foto, e checou quem é o autor?
Não – Então veja este vídeo de gatinho fofo e, depois, leia o texto.
Sim – Passe para o item seguinte.

2) O que você vai postar incita violência contra outras pessoas (principalmente grupos que já sofrem preconceito) ou faz bullying em alguém?
Sim – Então veja este vídeo de gatinho fofo e reflita sobre isso.
Não – Passe para o item seguinte.

3) O que você vai postar acrescenta algo ao debate, sem repetir o que todos já estão falando?
Não – Então veja este vídeo de gatinho fofo e pense melhor.
Sim – Passe para o item seguinte.

4) O que você está prestes a postar serve apenas para se sentir importante por conta da “chuva de likes” que seus amigos farão sobre o comentário?
Sim – Então veja este vídeo de gatinho fofo e analise a necessidade disso.
Não – Passe para o item seguinte.

5) O que você vai postar possui argumentos baseados em fatos reais, sem ter sido inventado apenas para criar confusão?
Não – Então veja este vídeo de gatinho fofo e pondere.
Sim – Passe para o item seguinte.

6) O que você vai postar é machista, racista, sexista ou regado por preconceitos de gênero, orientação sexual e origem social?
Sim – Então veja este vídeo de gatinho fofo e medite sobre isso.
Não – Passe para o item seguinte.

7) O que você vai postar poderia ser dito de forma mais educada?
Sim – Então veja este vídeo de gatinho fofo e reformule o seu comentário.
Não – Passe para o item seguinte.

8) Você teria coragem de dizer o que está prestes a postar para um auditório lotado com 500 pessoas desconhecidas?
Não – Então veja este vídeo de gatinho fofo e refaça.
Sim – Passe para o item seguinte.

9) O que você está prestes a postar ataca a pessoa que escreveu o texto ao invés de criticar argumentos usados por ela?
Sim – Então veja este vídeo de gatinho fofo e reescreva.
Não – Passe para o item seguinte.

10) Você está postando isso através de um perfil falso que criou para não ser identificado, por que sabe que está pegando muito pesado?
Sim – Então veja este vídeo de gatinho fofo e troque de perfil.
Não – Poste e veja este vídeo de gatinho fofo

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O noticiário alerta que o mundo lá fora está pegando fogo, mas seu grupo favorito de Whatsapp é só ternura, com mensagens de bom dia e emojis de coração? Todo mundo no seu Facebook vai votar naquele mesmo cara que você, então você fica surpreso quando seu candidato perde a eleição? Aquele jornalista com quem você normalmente não concorda parece apresentar um ponto de vista interessante em um novo artigo, mas você tem medo de tuitar um link porque teme atrair o rancor dos seus colegas, que também odeiam ele?

Quando nos preocupamos com a influência dos meios de comunicação, é fácil de esquecer que outras instituições e grupos também tem um peso nas nossas decisões, valores e ações. No caso das redes sociais, as pessoas com quem fazemos amizades, seguimos ou as páginas que curtimos passam a ser fontes importantes de informação.

Uma pesquisa de 2017 do Instituto Reuters e da Universidade de Oxford em áreas urbanas brasileiras mostra que 66% dos entrevistados usam redes sociais como fonte de notícias – um índice próximo da televisão, com 78%, e bem superior aos veículos impressos, com 37%. Mas a forma como escolhemos nossos melhores amigos é bem diferente do jeito como selecionamos nossos meios de comunicação preferidos.

Uma informação indigesta

Qual o problema de usar redes sociais como fonte de informação? Ao contrário dos jornais e revistas, que apresentam uma seleção das notícias consideradas as mais importantes por seus profissionais, as redes sociais trazem informações que seus contatos consideram importantes.

Ou seja, ao invés de uma dieta balanceada, preparada por nutricionistas profissionais, você vai devorar o que quiser no buffet self-service. Pode parecer uma ótima opção para personalizar seu prato noticioso e fugir daquelas saladas insípidas com notícias sobre reforma tributária (blergh), mas tome cuidado! Não dá para encher o prato só com sobremesa, né? Na verdade, até dá, mas o resultado pode comprometer sua saúde – e seu conhecimento sobre o mundo.

Essa metáfora alimentar, desenvolvida por Clay Johnson, é um alerta sobre os riscos de uma “dieta informativa” desequilibrada. Redes sociais apresentam o conteúdo que você considera relevante, mas o ativista Eli Pariser destaca que como o objetivo delas é mantê-lo online o maior tempo possível, elas tendem a “mimar” o leitor, oferecendo um cardápio de informações que reforça preferências anteriores, ao invés de apresentar perspectivas novas ou contestações.

Pode parecer difícil dar as costas para o conforto da câmera de eco que criamos em nossas redes sociais, e isso acontece offline também. Pontos de vista divergentes e bem fundamentados ou fatos que não se encaixam nas nossas crenças criam um desconforto porque questionam nossa visão de mundo e demandam um trabalho danado para pensarmos em argumentos melhores que sustentem nossas ideias – ou até revisar nossas ideologias, o que é exaustivo.

É por isso que “normalmente nós não queremos boa informação de verdade, mas sim informações que confirmem nossos preconceitos”, como bem apontou o articulista Nicholas Kristof, do jornal The New York Times. Entretanto, Kristof lembra que, sem essa diversidade, estamos construindo um grande abismo que separa grupos políticos cada vez mais polarizados.

Isso acontece porque nós temos uma propensão a acreditar que nós estamos certos, para não gastar tanto tempo duvidando constantemente de cada escolha, opinião ou crença. Mas isso abre espaço para três armadilhas que a psicologia social já identificou: o viés da confirmação, a conformidade e a polarização.

Viés de confirmação e dissonância cognitiva

É mais fácil apontar o dedo para os outros do que olhar para o próprio umbigo. Somos muito bons para identificar a fragilidade dos argumentos dos outros. Ficamos ainda mais atentos para achar erros entre aqueles que discordam da gente, porque isso ajuda a fortalecer nossas próprias opiniões.

Ninguém conseguiria viver a vida tranquilamente se questionando toda hora, sem confiar em suas próprias decisões ou opiniões. Evitar essa constante insegurança é o que Cass Sunstein chama de “reduzir a dissonância cognitiva” – um jeito bastante sofisticado de dizer que evitamos dor de cabeça ao lidar com situações que ameaçam a forma como a gente acha que o mundo funciona, ignorando o que parece não se encaixar.

Isso faz com que as pessoas tendam a escolher os fatos que querem aceitar, e da mesma forma descartar o que contradiz suas preconcepções. Nesse caso, acreditar ou não em um boato depende menos da sua fundamentação – o que vale mesmo é se essa história é conveniente ou não para apoiar nossas ideias.

É o que os psicólogos chamam de “viés de confirmação”. Nas palavras do pesquisador Raymond S. Nickerson, esse fenômeno ocorre na “procura ou interpretação de provas de uma forma que seja parcial para crenças, expectativas ou hipóteses pré-existentes”. É um risco que até cientistas correm, na hora de explicar os resultados de seus experimentos. E nós todos podemos acabar nos enganando desse jeito, sem perceber.

Conformidade à pressão dos pares

Da mesma forma como acreditamos nos boatos que se encaixam em nossas crenças anteriores, também vamos considerar que alguma história duvidosa pode ser sólida se outras pessoas acreditarem nisso.

Isso ocorre porque acreditamos na capacidade dos indivíduos dos nossos círculos sociais em separar o joio do trigo. Afinal, eles foram espertos o suficiente para aceitar a sua amizade, então devem saber o que estão falando, certo? Não é bem assim, porque todos podem se enganar.

Isso pode ajudar a entender por que tanta gente dá credibilidade para as informações que circulam nas redes sociais, às vezes acreditando nessas fontes mais do que em veículos jornalísticos tradicionais. Afinal, você nunca ouviu falar nesse repórter ou nesse articulista, mas você conhece muitas pessoas nas suas redes sociais e confia nos seus amigos e familiares.

Esse fenômeno também explica a chamada “pressão dos pares”, que nos levam a tomar atitudes e acreditar em valores que inicialmente recusamos. A força do grupo nos empurra para nos encaixarmos no molde coletivo, e muitos acabam cedendo para não sofrer punições, que podem ir desde a reprovação coletiva até o isolamento ou a violência.

Resistir é arriscado, e assim o grupo mantém sua coesão interna, ameaçando quem parece divergir para se alinhar com os outros e seus líderes. Já dá para imaginar qual o resultado: os grupos diferentes se tornam cada vez mais homogêneos, mas ficam cada vez mais distantes, o que abre espaço para polarização.

Polarização de grupo e radicalização

Grupos com indivíduos muito semelhantes correm o risco de recusar divergências, se opondo de forma bastante enfática contra quem não concorda ou contesta suas posições. Quando o grupo interage e faz circular informações convenientemente alinhadas, seus membros podem se tornar bem radicais e intolerantes.

Isso acontece porque nós nos sentimos mais seguros de que nossas ideias são corretas se sentirmos que “todos” ao nosso redor concordam. Mas esse “todos” é bem relativo: se você expulsou do seu convívio quem discorda de você e só conversa com quem vê as coisas do mesmo jeito, logo vai achar que “todos” pensam do mesmo jeito. Os estatísticos diriam que você acabou construindo uma amostra viciada, pouco representativa do todo.

Por fim, se alguém mergulha cada vez mais fundo em grupos homogêneos, fugindo da diversidade, esse processo pode levar à radicalização. Desse jeito, visões extremistas começam rejeitando contestação ou questionamento e acabam considerando inválidas – ou até mesmo perigosas – outras formas de ver as coisas.

Como evitar essas armadilhas?

Quem constrói um círculo social (online ou offline) com pessoas e fontes de informação exageradamente alinhadas corre risco de radicalização e tem mais chance de ser enganado por informações falsas, porque qualquer tipo de questionamento é evitado.

Fugir desse ciclo é muito simples: é só abrir espaço para mais diversidade de perspectivas. Vale a pena, por exemplo, navegar por sites de veículos de comunicação, blogs, páginas ou canais com os quais você não concorda para ver como o “outro lado” pensa. Você talvez perceba que existem mais pontos de concordância do que imagina, ou pode até mudar de opiniões, de vez em quando.

Quem fica muito restrito em uma só bolha acaba tendo dificuldade em reconhecer que está errado – e pode insistir demais no erro, até ser tarde demais. Para não ficar com fama de cabeça-dura, precisamos continuar abertos para opiniões divergentes e para fatos que não se encaixam na nossa ideologia.

Além disso, precisamos evitar o conforto de nos cercar de pessoas que concordam conosco. É preciso continuar em contato com ideias que vão contra tudo o que acreditamos – mantendo o respeito na hora de discordar, sempre.

O jornal inglês The Guardian, uma publicação reconhecida por seu posicionamento mais à esquerda, criou uma área, dentro de seu site, chamada Burst your Bubble – em português, “Estoure sua bolha”. Nessa parte, os editores do jornal selecionam artigos de fontes mais conservadoras, à direita, para que seus leitores não fiquem com a impressão de que o outro lado não tem nada legítimo para dizer.

Nos Estados Unidos, uma equipe de jornalistas criou uma newsletter chamada The Flip Side com um objetivo semelhante: colocar lado a lado as perspectivas diferentes entre os dois lados bastante polarizados da política norte-americana que raramente circulam pelos mesmos lugares.

Essas duas iniciativas infelizmente estão só em inglês, mas você pode fazer a sua própria seleção de perspectivas diferentes, acompanhando veículos de comunicação de posições ideológicas diferentes. E tem outro jeito mais direto de fazer a mesma coisa, e bem mais simples: é só continuar conversando com pessoas que não são iguais a você, e não pensam do mesmo jeito.

Mas não adianta sair por aí procurando pontos de vista diferentes só para discordar deles. Respeitar a diversidade é bem diferente de provocar briga. É preciso rever nossos próprios argumentos antes de questionar os dos outros, e devemos sempre manter o respeito com quem não concorda.

Fontes / Para saber mais

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923) [Obras completas v. 15]. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

JOHNSON, Clay. A dieta da informação: uma defesa do consumo consciente. São Paulo: Novatec, 2012.

KLAYMAN, Joshua. “Varieties of Confirmation Bias”. Psychology of Learning and Motivation, vol. 32, p. 385-418, 1995. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0079-7421(08)60315-1

KRISTOF, Nicholas. “The Daily Me”. The New York Times, 18/03/2009. Disponível em: https://www.nytimes.com/2009/03/19/opinion/19kristof.html

NICKERSON, Raymond S. “Confirmation bias: A ubiquitous phenomenon in many guises”. Review of General Psychology, vol. 2, n. 2, p. 175-220, jun. 1998. Disponível em: http://psycnet.apa.org/buy/1998-02489-003

PARISER, Eli. O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

SUNSTEIN, Cass. A verdade sobre os boatos: como se espalham e por que acreditamos neles. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

WHITE, David Manning. “The ‘Gatekeeper’: a case study in the selection of news. Journalism & Mass Communication Quarterly, vol. 27, n. 4, p. 383-390, set. 1950. Disponível em: https://doi.org/10.1177/107769905002700403

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