10. Discurso do ódio: Onde vive? Do que se alimenta? Como se reproduz?

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Você vai ver, neste módulo, como a polarização política ataca a empatia e promove o discurso de ódio no Brasil  e poder ver em imagens o processo que nos levou a ser uma nação ultrapolarizada, em que um lado não enxerga as razões do outro. Verá definições do que é o discurso de ódio, entenderá como ele funciona, testará sua habilidade em reconhecê-lo e conhecerá estratégias de como identificá-lo. Também verá que o ódio não se combate com silêncio e que devemos nos lembrar que ninguém nasce odiando, mas aprende-se a odiar. Verá como o Facebook identifica discurso de ódio. E, por fim, vai poder testar seus conhecimentos.

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Laerte

Enquanto Jair Bolsonaro estava sendo operado na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, após o lamentável atentado que sofreu em uma atividade de sua campanha eleitoral, em 6 de setembro de 2018, parte das redes sociais começava a trilhar um caminho sombrio.

De um lado, antibolsonaristas questionavam a veracidade da facada, apesar dos boletins médicos e de toda a cobertura midiática mostrar que ela aconteceu. De outro, bolsonaristas apontavam para uma conspiração contra ele, mesmo que tudo apontasse para um desequilibrado movido pelo clima de ódio político no país – hipótese que a Polícia Federal veio a comprovar mais tarde.

Levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp), que analisou 1.702.949 retuítes, entre 18h30 do dia 6 de setembro (data do atentado) e 9h do dia seguinte, mostrou que 40,5% das interações no Twitter acusaram a facada de ser uma farsa e ironizaram as críticas da direita a uma suposta falta de empatia da esquerda. Veja o gráfico que representa isso:

A ignorância e o ódio são lugares quentinhos, refúgios diante da realidade fria e desoladora, em que – às vezes – as coisas não fazem muito sentido. Sim, o mundo sem teorias da conspiração seria mais duro. E teríamos que assumir muitas de nossas responsabilidades sem jogar a culpa no desconhecido, no oculto, no sobrenatural, no estrangeiro, na orquestração que nos transforma em fantoches da vida.

Por isso, nunca precisamos tanto da razão e do diálogo. Pessoas e instituições que construam pontes para unir grupos que se xingam mutuamente no escuro, pois acham que sabem o que o outro é e o que o outro pensa. E que, armadas até os dentes com seus preconceitos, estão – literalmente – matando uns aos outros.

Em uma sociedade ultrapolarizada, não raro as pessoas deixam de lado os fatos e guiam-se pelas emoções. Nesse momento, pouco importa a checagem de fatos e técnicas para descobrir falácias. Elas sabem que a informação não corresponde à realidade, mas compartilham-na mesmo assim porque odeiam o alvo da difamação.

O contato com pessoas e ideias diferentes é importante porque nos lembra que podemos pensar diferente e, ainda assim, conviver de forma pacífica. Quando nos isolamos e perdemos contato, passamos a considerar o outro como uma ameaça ao que somos como grupo. Perdemos a capacidade de sentir empatia, de nos colocar no lugar do outro. Não enxergamos as razões e motivos pelas quais eles pensam o que pensam, vemos apenas uma sombra tosca e simplista de sua existência, que – na verdade – é complexa como a nossa.

Muitos de nós leem, todos os dias, em grupos de WhatsApp e nas redes sociais, que adversários políticos e ideológicos são a corja da sociedade e agem para corromper os valores morais, tornar a vida dos “cidadãos pagadores de impostos”, um inferno, e a cidade, um lixo. Que são seres descartáveis e sujos e vivem na penumbra, ameaçando-nos com sua existência que não se encaixa nos padrões estabelecidos do bem.

A partir daí, acreditamos em discursos de líderes que dizem que o mal deve ser exterminado. E partimos para a guerra on-line e offline. Não percebemos que, neste momento, nós é que nos tornamos o mal.

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Juca Varella/Agência Brasil

Mas como chegamos até este momento em que pouco se ouve o outro e o esforço para se colocar no lugar dele é mínimo?

Os gráficos a seguir foram produzidos pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, mantido pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação Digital (Gpopai) da Universidade de São Paulo (USP). Eles mostram como a polarização evoluiu no país de 2013 a 2016.

Cada bolinha (nó) representa um página do Facebook. Os nós estão tão mais próximos quanto mais pessoas em comum curtiram os posts deles. As linhas mostram que pessoas curtem os posts das mesmas páginas. Foram mapeados os padrões de interação de cerca de 12 milhões de brasileiros.

Padrão de interação dos brasileiros em páginas do Facebook em 2013 (marcado pelos protestos pela redução das tarifas do transporte público):

Padrão de interação dos brasileiros em páginas do Facebook em 2014 (marcado pelas eleições presidenciais, que contaram com Aécio Neves e Dilma Rousseff no segundo turno):

Padrão de interação dos brasileiros em páginas do Facebook em 2016 (marcado pelo processo de impeachment de Dilma Rousseff):

As imagens mostram que enquanto a esquerda e a direita se voltaram a si mesmas, consumindo a informação que elas mesmas produziam, os dois grupos se distanciavam um do outro. Ou seja, menos pessoas acessavam páginas do outro grupo. O outro foi se tornando mais desconhecido ainda.

Isso não é um fenômeno puramente brasileiro, mas aconteceu em outras partes do mundo.

Veja o mesmo tipo de gráfico para os Estados Unidos em 2017, primeiro ano da presidência de Donald Trump:

Inspirados por lideranças políticas, econômicas, midiáticas e sociais, de direita e esquerda, avançamos no processo de desumanização de adversários, transformando-os em inimigos, transferindo a eles os piores defeitos. Com a distância aumentando, passamos a não escutar o outro, apenas culpá-los pelas mazelas.

Veja o que o Pablo Ortellado, professor do curso de Políticas Públicas da USP e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital tem a nos dizer sobre a relação de ultrapolarização política e ódio:

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Wilson Dias/Agência Brasil

Cada país conta com sua própria legislação, baseadas em uma série de elementos culturais e históricos. Ou seja, o limite de onde termina  a liberdade de expressão e começa o discurso de ódio varia de acordo com cada lugar. Nos Estados Unidos, por exemplo, há ataques violentos contra minorias que não são encaradas pela lei como discurso de ódio. As mesmas declarações, contudo, seriam punidas no Brasil ou em países da Europa Ocidental, por exemplo.

Preocupada com o avanço da intolerância em todo o mundo, a Organização das Nações Unidas lançou, em junho de 2019, um plano de ação sobre o discurso de ódio. Apesar de não haver uma definição aceita globalmente para esse fenômeno, a ONU, no contexto do plano, entendeu-o como:

“Qualquer tipo de comunicação falada, escrita ou comportamento que ataca ou usa linguagem pejorativa ou discriminatória com referência a uma pessoa ou grupo com base em quem eles são. Em outras palavras, sua religião, etnia, nacionalidade raça, cor, descendência, sexo ou outro fator de identidade”, explicam as Nações Unidas.

Para Eloísa Machado de Almeida, professora da FGV Direito SP e coordenadora do centro de pesquisa Supremo em Pauta, o discurso de ódio é caracterizado como uma fala que promove o fim da igualdade entre as pessoas – a discriminação por raça, gênero, orientação sexual, idade, religião, origem ou condição social. É um discurso que opera a partir da discriminação para a restrição de direitos e até à violência e à aniquilação do grupo discriminado.

Já o Facebook define discurso de ódio como um ataque, como uma generalização degradante ou calúnia, visando a uma “categoria protegida” de pessoas – incluindo sexo, raça, etnia, religião, origem nacional, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência ou doença grave. Mas a plataforma também está sujeita à legislação de cada país.

Por mais que proponha que discursos de ódio devem ser combatidos de diversas formas, a ONU lembra que, do ponto de vista internacional, o limite utilizado para a proibição é o incitamento à discriminação, à hostilidade e à violência. Ou seja, convocar outras pessoas a causarem mal a um terceiro ou um grupo por ele ser quem é.

Recordar é viver: O caso do Homem do Aerotrem

Em um debate com os candidatos à Presidência da República, realizado pela TV Record, em 29 de setembro de 2014, o candidato Levy Fidélix, do PRTB, foi questionado sobre direitos homoafetivos. Como resposta, soltou um rosário de impropérios que fariam corar até os mais fundamentalistas.

Afirmou que “aparelho excretor não reproduz”, comparou gostar de alguém do mesmo sexo a praticar pedofilia e, ao final, conclamou: “Vamos ter coragem! Nós somos maioria! Vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los”. Esse foi considerado por juristas como um caso de um discurso de ódio que incita à violência. Ele acabou multado pela Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo.

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O preconceito e o discurso do ódio avançam, muitas vezes, na falta de empatia. Ou seja, quando a capacidade de nos colocarmos no lugar de outra pessoa para tentarmos entender o seu ponto de vista não é exercitada devidamente.

Como nos explica o professor Pasquale Cipro Neto, neste mundo cada dia mais conectado e polarizado, com uma avalanche de desinformação que não para de crescer, defender a ideia de “empatia” é quase um ato revolucionário. Mas fundamental.

Principalmente se acreditamos que todos nascem com os mesmos direitos que nós.

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O combate ao discurso de ódio não é simples. Há casos em que ele é bem explícito, como nas frases: “Precisamos acabar com esses índios sujos urgentemente porque eles não são civilizados como nós!” ou “Bichas devem ser mortas porque são aberrações”. Mas, na maioria das vezes, ficamos na dúvida. Como combater esse tipo de discurso sem passar por cima da liberdade de expressão?

Além do mais, alguns ataques se enquadram em outros tipos do Código Penal, como a calúnia (acusar alguém de um crime sabendo que a pessoa não o cometeu), a difamação (espalhar algo que prejudique a reputação da pessoa) e a injúria (dizer algo a uma pessoa que ela considere prejudicial) e não em discurso de ódio. Vale ressaltar que dizer algo com ódio não significa necessariamente discurso de ódio.

Para ajudar a entender, fizemos um breve teste. Escolha suas opções e depois veja as respostas comentadas de Eloísa Machado de Almeida:

Em um textão no Facebook, uma pessoa propõe que se crie um grupo para espancar, torturar e linchar gays que frequentam casas noturnas no Centro de São Paulo, pois eles seriam uma abominação. Isso poderia ser considerado como discurso de ódio?

Correto!

Errado!

O discurso de ódio, de intolerância, é caracterizado como uma fala que promove a desigualação de pessoas, a discriminação por raça, gênero, orientação sexual, idade, religião, origem ou condição social. É um discurso que opera a partir da discriminação para a restrição de direitos e até a violência e aniquilação do grupo discriminado.
Um comentarista na internet chama de picareta, incompetente e incapaz um político que você respeita. Isso poderia ser considerado como discurso de ódio?

Correto!

Errado!

Não. Situações como essa podem ser caracterizadas como calúnia (acusar alguém de um crime que ele ou ela não cometeu), injúria (dizer a alguém algo que a pessoa considere prejudicial contra ela) ou difamação (espalhar algo que prejudica a reputação de alguém).
Um artista famoso diz em uma entrevista de um programa de TV de grande audiência que Deus é mulher e negra. Isso poderia ser considerado como discurso de ódio?

Correto!

Errado!

As pessoas têm diferentes formas de ver o mundo e de se manifestar sobre ele. A liberdade de expressão e a liberdade de pensamento são garantias de que as pessoas possam expressar suas ideias sem sofrer qualquer restrição.
Uma mensagem em uma lista de discussão convoca as pessoas a perseguirem e assediarem jornalistas. Isso poderia ser considerado como discurso de ódio?

Correto!

Errado!

Por mais violento que seja, a depender das circunstâncias, tal mensagem pode se caracterizar como crime de incitação à violência. Não é ódio a um indivíduo ou grupo por sua natureza.
Alguém diz que a cidade onde você nasceu é horrível, independentemente se com razão ou não. Isso poderia ser considerado como discurso de ódio?

Correto!

Errado!

As pessoas têm diferentes formas de ver o mundo e de se manifestar sobre ele. A liberdade de expressão e a liberdade de pensamento são garantias de que as pessoas possam expressar suas ideias sem sofrer qualquer restrição.
Alguém conclama que nordestinos são responsáveis pelos problemas de emprego de São Paulo e conclama pela criação de um grupo para dar uma surra neles. Isso poderia ser considerado como discurso de ódio?

Correto!

Errado!

O discurso de ódio, de intolerância, é caracterizado como uma fala que promove a desigualação de pessoas, a discriminação por raça, gênero, orientação sexual, idade, religião, origem ou condição social. É um discurso que opera a partir da discriminação para a restrição de direitos e até a violência e aniquilação do grupo discriminado.
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Rodrigo Ratier, um dos coordenadores do “Vaza, Falsiane!”, organizou 13 estratégias para identificar o discurso de ódio para a revista Nova Escola. Não significa que a mera presença de um desses itens coloca um texto nessa categoria – como vocês já viram, a questão é mais complexa. Mas eles são indicadores para prestarmos se o discurso tem o objetivo de desumanizar o interlocutor. Trazemos aqui os passos para vocês:

1) Ofensas: Palavras que desrespeitam o interlocutor são o sinal mais evidente de ódio: burro, idiota, encostado.

2) Ataque pessoal: O argumentum ad hominem, em latim, é quando se ataca a pessoa, e não o argumento: “Você não é professor; não pode opinar sobre Educação”.

3) Palavras carregadas: Exageros que ressaltam defeitos dos adversários. “O diretor foi humilhado”, “A coordenadora deu chilique”.

4) Estigmatização: Reduzir oponentes a uma característica negativa: empresários “são capitalistas insensíveis”; professores são “militantes travestidos de educadores”.

5) Bode expiatório: Culpar uma pessoa por um problema complexo: “Paulo Freire é o responsável pela má qualidade da Educação”.

6) Neologismo ofensivo: Palavras inventadas para agredir: petralha, coxinha, esquerdopata, reaça, gayzista, feminazi…

7) Espantalho: Distorção do argumento do adversário para atacá-lo mais facilmente. Exemplo: chamar de “kit gay” o material “Escola sem Homofobia”.

8) Versão editada: Editar um debate que foi equilibrado, entre duas pessoas, colocando apenas os trechos em que um deles mandou bem e, o outro, derrapou.

9) Você também: Do latim tu quoque, significa devolver a acusação: “Na sua escola o Ideb também é péssimo”.

10) Falso dilema: É mostrar duas opções opostas como as únicas possíveis (quase sempre, há outras”). “Se você não faz piquete, é fura-greve.”

11) Chamado à guerra: Estratégia dos polemistas para seguir em evidência: “Fulano desafia Beltrano para um debate”.

12) Apelo ao passado: Ideia de que tudo ia bem até surgir o “inimigo” (famílias “desestruturadas”) ou uma ameaça à tradição.

13) Inversão de sinais: É a troca de sentido da violência: “Com a demarcação, os índios vão tomar nossas terras”.

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A estratégia da ONU para combater o discurso de ódio, na prática, serve para todos nós no dia a dia: Primeiro, não se combate ódio com silêncio, mas com muita conversa pacífica. Segundo, a responsabilidade por esse combate é de todo mundo, inclusive de quem pensa que o certo é ficar quieto no seu canto e não se intrometer em nada. Quando as pessoas conscientes se calam, o mundo piora. Terceiro, as pessoas precisam ser capacitadas para reconhecer e rejeitar o discurso de ódio – e é isso o que você está fazendo neste capítulo. E, por último, é preciso conhecimento para agir, ou seja, continuar pesquisando para entender as causas do surgimento do ódio.

A jornalista e pesquisadora sobre comunicação não-violenta, Ligia Ximenes, falou ao Vaza, Falsiane! sobre uma forma bem simples de furar o silêncio e estabelecer pontes com o outro:

Durante oito meses, o Observatório Proxi (Projeto Online contra a Xenofobia e a Intolerância), impulsionado pelo Instituto de Direitos Humanos da Catalunha e pela organização espanhola United Explanations, acompanhou as opiniões em notícias sobre imigração e população roma (conhecidos como ciganos), dois temas especialmente delicados na Espanha. Foram mais de 400 notícias e 4.700 comentários analisados nos três sites com maior audiência do país – El País, 20 minutos e El Mundo. Além disto, o projeto se dedicou também a intervir nos fóruns, com o objetivo de reduzir os níveis de aceitação do discurso intolerante.

Para o pesquisador do projeto Alex Cabo, o discurso intolerante é mais recorrente no ambiente virtual do que na vida real na Espanha. “Há pesquisas que indicam que cerca de um terço da sociedade é tolerante à população imigrante, mas nos comentários somos apenas 11%”, problematiza. Ou seja: “temos que sair da nossa zona de conforto e debater”, defende.

Tentando equilibrar o debate, o Observatório também se dedicou a intervir nos fóruns. A participação não almejava dialogar com quem havia escrito mensagens intolerantes e sim com o leitor ambivalente, que não necessariamente participa do fórum, mas utiliza estas opiniões na construção da sua própria. “Há estudos que indicam que os comentários podem interferir na percepção que o indivíduo tem da própria notícia”, reforça Alex.

Na avaliação dos pesquisadores, a ação teve bons resultados já que possibilitou diálogos construtivos entre alguns comentaristas e estimulou a participação de outros leitores tolerantes. Alex explica que se obteve um resultado melhor quando interviram no início dos debates e conseguiram o apoio de outros internautas, “mas, em outros casos, chegamos tarde demais e a bola de neve já estava formada e rolando”.

Ou seja, se deixarmos o silêncio ele poderá e será preenchido por quem não se importa com a dignidade das pessoas e apenas quer vencer uma guerra política nas redes sociais e aplicativos de mensagens.

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No livro “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, a filósofa Hanna Arendt conta a história da captura do carrasco nazista Adolf Eichmann, na Argentina, por agentes israelenses, e seu consequente julgamento. Ela, judia e alemã, chegou a ficar presa em um campo de concentração antes de conseguir fugir para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

O relato levantou muita polêmica na época. Porque, ao contrário da descrição de um demônio que todos esperavam em seus relatos, o que ela viu foi um funcionário público medíocre e carreirista, que não sentia culpa sobre suas ações e atividades e repetia clichês. Para ela, ele não apresentava distúrbios mentais ou caráter doentio. Agia acreditando que, se cumprisse as ordens que lhe fossem dadas, ascenderia na carreira e seria reconhecido entre seus pares por isso. Cumpria ordens com eficiência, sendo um bom burocrata.

Hanna Arendt não quis com o texto, que lhe trouxe ameaças e lhe tirou amigos, suavizar os resultados da ação de Eichmann, mas entendê-lo em um contexto maior. Seria fácil pensar que pessoas têm uma natureza maligna. Mas a maldade, construída aos poucos, por influência de pessoas e diante da falta de crítica, ocupa espaço quando as instituições politicamente permitem.

É assustador saber que alguém visto como “normal” e “comum” pode ser capaz, nos contextos histórico, político e institucional apropriados, tornar-se o que convencionamos chamar de “monstro”. Sim, os “monstros” podem ser nossos vizinhos – aquela que empina pipa com sua filha, aquele que faz um ótimo churrasco, aquele que adora cuidar de roseiras. Ou podemos ser nós mesmos.

Cuidado com quem exerce o ódio como profissão

Há também os profissionais da retórica da provocação do ódio, aqueles que montam seus discursos de forma competente para que seus leitores e ouvintes sintam raiva e queiram exterminar outros grupos sociais sem que, para isso, precise ele próprio dizer nada.

Esse tipo de profissional é fascinante por duas razões: primeiro, o discurso de ódio propriamente dito não fica por sua conta, mas da de seus comentaristas ou grupos de apoio – formalmente, ele é apenas a faísca que dispara o processo. E, em segundo lugar, pois, quando acusado tende a usar como resposta não a defesa da própria liberdade de expressão, mas que o outro é que está provocando o ódio contra ele.

São comunicadores, políticos e religiosos e estão no nosso dia a dia, nos fazendo sentir ódio pelo que não conhecemos sem que sejamos capazes de perceber. A melhor maneira de combatê-los é não comprar discursos prontos, mas refletir sempre por conta própria.

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O The New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo, publicou, em outubro de 2017, um teste para verificar se os seus leitores eram capazes de identificar como o Facebook analisa o discurso de ódio. Sob a ótica das regras da plataforma, Danielle Citron, especialista em privacidade de informações e professora de Direito da Universidade de Maryland, ajudou o jornal a analisar seis declarações profundamente ofensivas. Claro que, aqui, o padrão obedecido é a lei dos Estados Unidos, mais permissiva.

Trouxemos um resumo do teste do The New York Times a seguir. Mas lembre-se: isso é como o Facebook, que é a maior plataforma de redes sociais do mundo, analisa a questão. Não significa que a lei brasileira adota exatamente o mesmo critério. E a última palavra é sempre da lei.

“Por que os indianos sempre cheiram a curry ?! Eles fedem!”. Esta declaração atenderia aos critérios do Facebook para o discurso de ódio?

Correto!

Errado!

Segundo o documento de treinamento do Facebook, alegar que grupos específicos de pessoas "fedem" é uma generalização degradante. Uma porta-voz do Facebook disse ao jornal The New York Times que essa declaração seria sinalizada como discurso de ódio porque tem como alvo uma nacionalidade específica, que é uma categoria protegida. Citron concordou. “É isso que o discurso de ódio costuma fazer. Humilha", disse.
Pessoas negras pobres deveriam ainda se sentar na parte traseira dos ônibus”. Esta declaração atenderia aos critérios do Facebook para o discurso de ódio?

Correto!

Errado!

Enquanto o documento de treinamento do Facebook lista qualquer chamada para segregação como um ataque inaceitável, subconjuntos de grupos protegidos não recebem a mesma proteção, de acordo com o documento. Embora a raça seja uma categoria protegida, a classe social não é, de modo que ataques contra "negros pobres" parecem não se qualificar como discurso de ódio sob essas regras, disse Citron. Isso porque incluir a classe social no ataque nega a proteção concedida com base na raça. "O que me preocupa é que mudar uma palavra ou modificador não tira o impulso da mensagem", disse Citron sobre as diretrizes. Isso é problemático.
“Homens brancos são idiotas”. Esta declaração atenderia aos critérios do Facebook para o discurso de ódio?

Correto!

Errado!

Disse uma porta-voz do Facebook. Essa afirmação tem como alvo um subconjunto de duas categorias protegidas - "homens brancos" abrange raça e sexo - com um ataque, na forma de maldição. As regras do Facebook seguem a doutrina constitucional, fornecendo proteção igual a todas as raças, gêneros e orientações, disse Citron. Mas ela disse que essa política pode levar a resultados incongruentes, pois nem todos os grupos são igualmente vulneráveis em todos os contextos. “Esquece que a maioria dos homens tem vantagem e vantagem na sociedade. São realmente as mulheres com as quais nos preocupamos quanto discriminação e subordinação”, disse ela.
“Mantenha homens trans fora do banheiro feminino!”. Esta declaração atenderia aos critérios do Facebook para o discurso de ódio?

Correto!

Errado!

Depende. Enquanto algumas pessoas podem achar essa declaração ofensiva, outras podem não vê-la como controversa. A declaração tem como alvo um grupo com base em duas categorias protegidas - identidade de gênero e sexo - e pede a exclusão desse grupo. Mas provavelmente seria permitido por causa de debates contínuos sobre questões de transgêneros, disse uma porta-voz do Facebook. Citron descreveu essa declaração como um "exemplo maravilhoso de regras versus padrões" e concordou que o contexto seria uma consideração importante nesse caso.
“As repórteres esportivas precisam ser atingidas na cabeça com discos de hóquei.” Esta declaração atenderia aos critérios do Facebook para o discurso de ódio?

Correto!

Errado!

Embora o gênero seja uma categoria protegida, o documento de treinamento do Facebook afirma que a ocupação não é. Embora seja um apelo à violência, não parece violar as regras da empresa para o discurso de ódio, disse Citron. Isso porque incluir a ocupação no ataque nega a proteção concedida com base no sexo. Uma porta-voz do Facebook disse que seria sinalizada sob uma política separada em relação a ameaças diretas. Embora a política de ameaças da empresa, publicada em seu site, proíba apenas ameaças críveis de danos físicos a indivíduos, Citron disse que a redação das diretrizes é vaga o suficiente para que "você possa ler de qualquer maneira". E você pode achar, com razão, que isso novamente é problemático.
“Nunca vou confiar em um imigrante muçulmano… Eles são todos ladrões e assaltantes.” Esta declaração atenderia aos critérios do Facebook para o discurso de ódio?

Correto!

Errado!

Embora o Facebook geralmente considere ataques desdenhosos, incluindo grupos de alvos religiosos, como inaceitáveis, os materiais de treinamento da empresa classificam os imigrantes como uma “categoria quase protegida”. Isso significa que eles não estão protegidos contra alguns tipos de ataques, incluindo ataques desdenhosos. Segundo o documento de treinamento do Facebook, essa categoria quase protegida foi criada em resposta ao aumento da discussão on-line da crise dos refugiados na Síria. "Para mim, a idéia de que esse não seria um discurso de ódio mina o motivo pelo qual você está se incomodando em proibir o discurso de ódio", disse Citron.
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Fernando Frazão/Agência Brasil

Fontes / Para saber mais

Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal
Hanna Arendt, Companhia das Letras

A filósofa Hanna Arendt conta a história da captura do carrasco nazista Adolf Eichmann, na Argentina, por agentes israelenses, e seu consequente julgamento. Ela o mostra como alguém que cumpria ordens com eficiência, sendo um bom burocrata, sem refletir sobre o mal que elas causavam.

Para educar crianças feministas: um manifesto
Chimamanda Ngozi Adichie, Companhia das Letras

A escritora nigeriana propõe formas de romper o machismo e o preconceito na sociedade através da educação das novas gerações. Ao contrário do que pode parecer pelo título, a publicação não é voltada apenas a pais e mães, mas todos que ainda têm dúvidas sobre o poder transformador e includente do feminismo.

Linchamentos – A Justiça Popular no Brasil
José de Souza Martins, Editora Moderna

Mais de um milhão de pessoas participaram de ações de justiciamento de rua no país nos últimos 60 anos, o que faz do Brasil um dos locais com maior incidência de linchamentos do mundo. Não apenas atos motivados por morte e estupro de crianças e roubos, mas também por medos arcaicos, temores sem fundamentos e descrença nas instituições responsáveis por cumprir a lei.

UnSpun Finding Facts in a World of Disinformation
Jamieson Brooks e Kathleen Hall, Random

Apesar de ser de 2007, este livrinho – que não foi publicado no Brasil, mas pode ser adquirido em formado e-book – segue sendo um bom curso intensivo contra a desinformação e a intolerância.

A afirmação histórica dos direitos humanos
Fábio Konder Comparato, Saraiva

A obra trata da evolução histórica dos direitos humanos desde a Idade Média (com as primeiras instituições de limitação do poder). Mostra a progressão dos direitos individuais aos da própria humanidade.

Página no Facebook do Monitor do Debate Político no Meio Digital, mantido pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação Digital da USP: https://www.facebook.com/monitordodebatepolitico/

Página da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp): http://dapp.fgv.br

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Assinale a alternativa que considerar a mais correta para o que é discurso de ódio:

Correto!

Errado!

Resposta certa: d. O discurso de ódio, de intolerância, é caracterizado como uma fala que promove a desigualação de pessoas, a discriminação por raça, gênero, orientação sexual, idade ou condição social. É um discurso que opera a partir da discriminação para a restrição de direitos e até a violência e aniquilação do grupo discriminado.
Qual a melhor estratégia para agir em uma conversa em que você identificou discurso intolerante entre participantes a fim de melhorar o nível do debate público?

Correto!

Errado!

Resposta certa: c. Táticas para desumanização do adversário são a base do próprio discurso de ódio. Já o silêncio, seja ao não se pronunciar, seja ao abandonar a conversa, pode ser bom para a autopreservação, mas não melhora a qualidade do debate na esfera pública. Comentários baseados em fatos e formulados de maneira educada podem interferir na percepção dos demais.
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