5. Como identificar quem erra sempre – e de propósito

Studio Stoks / Shutterstock

Neste capítulo você vai aprender o que acontece quando alguém sai espalhando informação incorreta por aí. Vai descobrir porque isso pode ser um pesadelo para os bons jornalistas, mas parece o mundo dos sonhos de quem quer mesmo te enganar. Você vai ver por que o erro fica entalado na garganta dos jornalistas sérios, mas é o arroz com feijão de quem espalha fake news; o que os profissionais da imprensa fazem para verificar as informações, apurando os fatos; como você pode detectar sites e informações suspeitas pela internet; quais são as consequências quando comunicadores passam para frente informação incorreta; o que acontece do lado das vítimas dessas inverdades, acompanhando um depoimento exclusivo do ator Wagner Moura e como a mídia alternativa também pode ser fonte de informação e combater as mentiras.

Caramba… foi bem mals
Caramba… foi razoável
Caramba… foi muito bem
HotNews_AlicjaPixabay.jpgAlicja - Pixabay

Jornalistas profissionais não são perfeitos. Eles são pessoas como nós, e por isso, cometem erros também. O que distingue um jornalista profissional (de veículos grandes ou pequenos, tradicionais ou alternativos, independentes ou corporativos) de um picareta é a frequência e a gravidade de seus erros – e o que faz para reconhecer e reparar seus deslizes.

Todo meio de comunicação pode errar, mas paga um preço por isso. A imagem de um meio de comunicação é como um prédio, e cada erro é uma pequena rachadura. Se muitas se acumularem, ou alguma delas for muito grave, um trabalho construído durante anos pode ir ao chão de um dia para o outro. Reparar erros demanda custo e energia, mas é indispensável, pois o maior patrimônio de um meio de comunicação é a confiança do seu público. Quem vai confiar num prédio cheio de rachaduras, se ninguém se dá ao trabalho de arrumá-las?

O site ou canal picareta é o oposto disso. Quando erra ou compartilha bobagem, põe a culpa na fonte original, o que é equivalente a passar uma mão de tinta e dizer que consertou a rachadura. Isso quando não se finge de morto ao ser pego no flagra. Ao contrário de um meio de comunicação confiável, o picareta geralmente não está nem aí para os próprios erros.

O problema é que nas redes sociais, à primeira vista, todos os links parecem iguais. Todos os “prédios” têm a mesma fachada, e os picaretas contam com essa confusão pra serem passados adiante. Como distinguir uma fonte confiável de outra que deveria estar condenada faz tempo?

A receita para informações de qualidade

Não existe uma única forma de fazer jornalismo, um método sem risco para apurar e contar uma história. Jornalismo não é uma ciência. Mas alguns dos princípios da profissão tentam evitar a propagação de notícias incorretas, porque seus erros podem impactar a vida de muitas pessoas.

Conhecer esse padrão de qualidade pode aumentar a cobrança do público para que os jornalistas façam o melhor trabalho possível, e pode evitar que muita gente seja enganada quando encontrar essas lorotas por aí.

Uma das melhores formas para distinguir um veículo de comunicação sério de outro que só pretende te enganar é justamente quando um erro é publicado. Jornalistas de verdade, quando erram, não demoram para reconhecer o tropeço, corrigem a informação e procuram reparar esse deslize.

Bons veículos de comunicação têm canais abertos com leitores justamente para quem pretende apontar imprecisões: pode ser por telefone, e-mail ou até com um profissional responsável para ouvir as reclamações do seu público, chamado ombudsman. Justamente por ser exceção, e não a regra, é tão importante consertar esses erros quando eles ocorrem.

Quem não corrige erros não se importa com seus efeitos nos outros

Agora, você não vai encontrar essa mesma preocupação nos meios de comunicação que publicam qualquer coisa, de qualquer jeito. Como eles não ligam para a qualidade da informação (ou pior, querem mesmo enganar), não estão nem aí para quem aponta o dedo criticando.

Reconhecer erros é parte do exercício de humildade de todo bom jornalista, que faz de tudo para evitar essa vergonha, mas sabe que pior ainda é fingir que nada aconteceu. É também uma forma de mostrar que são responsáveis pela informação que coletaram e contam para nós, e só assim eles podem continuar a ter público e fontes no futuro.

Fontes de informação: de onde você tirou isso?

Outra questão vai ainda mais fundo: os jornalistas não são, eles mesmos, fontes de informação. Na verdade, eles são um ponto de contato entre o público e outras fontes, como pesquisadores, órgãos do governo, empresas, representantes políticos ou testemunhas que presenciaram as histórias que o jornalista vai organizar para nos contar.

Assim, é importante ter bastante claro qual é a fonte do jornalista: onde ele foi procurar essa informação. Quanto mais sabemos sobre as fontes de uma história, melhor podemos avaliar se as suas informações são confiáveis.

Será que essa fonte tem algum interesse nessa questão? Essa informação foi coletada de primeira mão, ou alguém está falando o que ouviu de outra pessoa, como um telefone sem fio? Será que não é importante considerar outras posições diferentes sobre essa questão? Todos os lados envolvidos foram consultados? É possível checar essa informação em outras fontes?

Essas perguntas são essenciais na hora de avaliar se a história que nós estamos lendo está bem apurada, se está faltando algumas partes, ou se o boato não tem pé nem cabeça.

“OFF”: E se a fonte não pode ser revelada?

Se as fontes não são identificadas, precisamos de ainda mais cautela: nesse caso, a história se sustenta só na reputação do próprio jornalista que foi encontrar essas informações e na credibilidade do veículo.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando a fonte de informação tem medo de sofrer punições por denunciar um crime, por exemplo. Mesmo quando os informantes não se identificam — o que em jornalismo se chama de “off the record” –, há regras a seguir.

Há dois tipos de off. O primeiro, chamado de off simples, é também o mais frágil: apenas uma pessoa deu a informação. Pode não ser confiável e o próprio veículo deve alertar sobre esse fato. O segundo, o chamado off cruzado, é quando a informação é confirmada por pelo menos três fontes diferentes.

Embora elas não queriam se identificar, ter o mesmo relato por diferentes fontes o torna mais robusto. Ainda assim, nada supera a informação de cara limpa, em que o entrevistado dá nome e sobrenome e se responsabiliza pelo que diz.

Autoria: quem se responsabiliza por esse texto?

Mas o que fazer se nem o jornalista se identifica? Aí, é preciso ter muito cuidado.

Se não conseguirmos achar os responsáveis pelo site em que essa informação for divulgada, nossa desconfiança deve ser redobrada. Quem não se identifica na hora de passar uma informação pode não ter nada a perder se descobrirmos que era pura mentira.

Por que fake news querem sua atenção, mas se escondem de você

É preciso deixar bem claro que existe uma diferença entre os erros cometidos por meios de comunicação e os sites que são criados propositadamente para espalhar notícias falsas disfarçadas de jornalismo.

Para o leitor desavisado, essa diferença pode não parecer tão evidente. Pode parecer difícil identificar os sites falsos, porque, basicamente, eles se esforçam muito em parecer verdadeiros. É justamente assim que eles tentam nos enganar, usando a mesma linguagem e a mesma aparência dos sites que estamos acostumados a ler e que passamos a confiar.

O problema é o que está por trás dessa fachada. Os sites e páginas sérios se esforçam bastante para apresentar a melhor informação possível porque, se eles cometerem erros, podem sofrer consequências legais, como processos, multas e até prisão. Além disso, o público pode perceber que ele não vale o tempo perdido e procurar informação em outros lugares.

É por isso que muitos sites e páginas de notícias falsas não deixam claro quem é responsável pelo conteúdo que publicam: eles não querem dar a cara para bater e correr o risco de processos por causa dos seus conteúdos incorretos.

Essa é justamente um dos sinais de alerta para identificar quem é sério e quem está de brincadeira: se você não consegue encontrar o autor do texto ou os responsáveis pelo site, fique alerta! Não dá para confiar em quem tem bastante trabalho para se esconder.

A isca para pescar seu clique

Um meio de comunicação sério tem um nome a zelar: sua reputação foi construída com muito suor, revelando histórias impactantes, importantes e precisas. Os jornalistas também se preocupam com sua credibilidade, e por isso se esforçam ao máximo para não manchar seus nomes.

Mas os veículos falsos e anônimos não têm nenhuma dessas preocupações, e por isso tantos podem simplesmente publicar mentiras até o ponto em que seu público passa a não voltar mais.

O complicado é que, com as redes sociais, muitos desses sites falsos perceberam que parte do público é visitante de primeira viagem mesmo. São pessoas que recebem um link por uma mensagem de um amigo, veem uma imagem bizarra publicada em redes sociais e clicam para saber mais, ou descobrem um site desconhecido ao fazer pesquisa pelas redes sociais.

Para muita gente, parece que não faz diferença se o site é completamente estranho: são tantos sites na internet, que não dá para conhecer todos. Os sites falsos contam com esse tipo de raciocínio e constroem sua armadilha.

A zoeira não tem fim, mas a paciência, sim

Enquanto eles conseguirem fisgar muitas pessoas, vão continuar jogando iscas como essas histórias malucas. Quando muita gente começar a descobrir que não dá para confiar neles, é um sinal de que o nome deles está sujo demais: eles não enganam mais ninguém.

Afinal, a fonte da mentira parece não ter fim, mas paciência tem limite; uma hora, a confiança também acaba. Mas muitos sites simplesmente fecham e abrem com outro nome e outro visual, como se nada tivesse acontecido. Com essas novas roupas, continuam enganando muita gente que já começava a desconfiar desses trapaceiros.

O que fazer, então? Precisamos manter uma desconfiança sempre, mas principalmente quando encontramos um veículo que não conhecemos. Credibilidade é essencial, e ela só pode ser garantida se sabemos com quem estamos falando, e de onde vem nossa informação: quem se esconde na hora de passar para frente suas mentiras não merece nossa confiança ou atenção.

Anonimato não garante impunidade

É muito fácil fazer mau jornalismo. Qualquer um pode escrever de qualquer jeito uma história baseada no que se ouviu por aí, sobre um tema que até chama a atenção, mas na verdade não tem a menor relevância.

Os riscos dessa divulgação desleixada são bastante graves justamente por parecer tão fácil sair por aí espalhando para todo mundo as maiores mentiras, impunemente. Jornalismo com histórias fresquinhas e importantes, informações bem apuradas e escrito de forma envolvente não é para qualquer um.

Mas nada pode acontecer com quem nos engana? Como você vai ver no final do curso, a internet não é uma terra sem lei, e mesmo os sites que parecem não ter nenhum responsável são registrados e podem sofrer punições.

Jornalistas que cometem erros e destroem vidas também acabaram com suas próprias carreiras. Quem resolve se esconder atrás de uma máscara e se disfarçar de jornalista para nos enganar pode correr o risco de ser descoberto no flagra e acabar pagando caro pelos seus erros.

Caramba… foi bem mals
Caramba… foi razoável
Caramba… foi muito bem

Como distinguir jornalismo de verdade de sites e canais de fake news? Este vídeo explica o trabalho que os jornalistas têm para garantir que você tenha acesso à informação mais bem apurada, checada e contextualizada. O vídeo também conta o que a imprensa séria, seja ela grande ou pequena, tradicional ou alternativa, deve fazer para reparar seus erros – uma responsabilidade que nunca é assumida por quem não liga para a qualidade da informação que passa para frente.

Caramba… foi bem mals
Caramba… foi razoável
Caramba… foi muito bem
Studio Stoks / Shutterstock

Alguém acabou de te passar um link para um site que você não conhece com uma história inacreditável. Ou você descobriu esse site com informações incríveis no meio da sua pesquisa. Talvez você tenha encontrado um papo escabroso depois de clicar em uma postagem de um amigo seu que está acima de qualquer suspeita.
Mas… dá para confiar?

Aqui você tem um kit de sobrevivência para não acabar perdido na selva das notícias falsas. Melhor que canivete-suíço, essa série de perguntas ajudam você a destrinchar suas fontes de informação, separando os sites, páginas e contas em redes sociais confiáveis dos que não devem valer a nossa atenção. Você pode considerar essas questões como um guia rápido para pesar a qualidade das suas fontes noticiosas.

O ideal seria responder todas essas informações com um grande e sonoro SIM! Mas mesmo veículos confiáveis podem, às vezes, ter algumas respostas negativas – nesse caso, vale manter um pouco de desconfiança e sempre lembrar a importância de checar informações em outras fontes.

Agora, se o site acumular muitas respostas negativas, você também vai ter achado a solução para seu questionamento se dá para confiar: NÃO!

1) Título

– O título evita estratégias apelativas?

Quem ESCREVE TUDO EM CAIXA ALTA, apela demais para suas reações emotivas (como fúria, compaixão ou medo) ou incita sua curiosidade, prometendo revelar um segredo, uma conspiração ou “o que os outros não querem que você saiba” pode estar tentando baixar sua guarda para passar pra frente um boato.

– As informações do texto sustentam o que o título afirma?

Se o título insinua uma coisa, mas o texto não consegue provar, não dá para confiar.

– O título resume de forma equilibrada a história ou as ideias retratadas no texto, sem desprezar detalhes importantes?

É uma pegadinha clássica: o título diz que alguém está envolvido em um crime, mas lendo o texto se descobre que a denúncia ainda nem foi investigado pela polícia, ou que foram pessoas que trabalham para esse indivíduo que podem estar sendo alvo de um processo. Repare que não é bem assim…

2) Autoria

– O autor do texto está identificado?

Nem todos os artigos têm sua autoria identificada. Muitos jornais e revistas deixam alguns textos mais simples, como pequenas notas, sem identificação de autor. Alguns editoriais, por representar a posição do veículo de comunicação como um todo, também não tem uma autoria individual.

Mas nesses casos quem garante as informações e ideias é o veículo que as publica. Se um site tem muitos textos sem autoria, tome um pouco de cuidado e verifique se a credibilidade desse veículo é grande o suficiente para bancar todas essas informações.

– As imagens tem crédito de autoria?

Além de reconhecer o trabalho do fotógrafo, o crédito da imagem ajuda a identificar o contexto em que essa imagem foi produzida. Sites que não identificam suas imagens podem tentar tirar uma foto do seu contexto para insinuar algo bastante diferente.

3) Linguagem

– A linguagem respeita as regras gramaticais?

Um texto que atropela a ortografia, não respeita acentuação ou concordância pode ser sinal de desleixo. Se o autor não se preocupa com as regras gramaticais, será que ele se importa com a qualidade da informação?

Lógico que isso não quer dizer que alguém que desconhece as regras gramaticais não pode falar a verdade: em um país como o nosso, com tantos problemas na formação escolar, não podemos desprezar a expressão de quem pode não ter tido oportunidade de aprender a escrita formal. Vale a pena também tomar cuidado com o oposto: um discurso empolado, cheio de palavras difíceis, pode disfarçar a falta de substância.

– O uso dos termos é equilibrado e preciso?

Linguagem informal, com gírias ou excesso de adjetivos pode sinalizar um texto menos informativo e mais próximo do apelo para nossas emoções. Também é importante tomar cuidado com textos cheios de generalizações e exageros. Nesse sentido, é importante se esforçar para perceber se o autor realmente quer dizer o que parece. Será que ele não está usando de ironia ou humor sarcástico? Cuidado para não levar a sério uma piada!

4) Fontes

– O texto identifica suas fontes?

Textos que não identificam suas fontes precisam ser considerados com muita cautela, porque é delas que vêm a informação apresentada. Quanto maior a credibilidade da fonte, maior a força da informação. O reverso também é verdade: fontes com histórico de mancadas não merecem nossa confiança.

Como o texto-base já explicou [LINK INTERNO – TEXTO-BASE DESTE TÓPICO], em alguns casos as fontes podem pedir para não ser identificadas por medo de sofrer consequências. Mas como quem garante essas reportagens é o autor do texto e o jornal, é importante que eles tenham confirmado essas informações com a maior quantidade possível de fontes – e seria bom que algumas delas aceitassem se identificar para assumir a responsabilidade pela informação.

– É possível checar a informação em outras fontes?

Se a história parece muito diferente do que você já conhece ou viu por aí, suspeite. Vale a pena confirmar a informação em outro meio de comunicação que você já conhece e confia. Se for uma história importante, vai aparecer no radar dos grandes veículos, que vão tentar confirmar ou desmenti-la.

Cuidado com informações que só saem em poucos veículos desconhecidos: uma prática comum dos sites de fake news dos mesmos donos é replicar a mesma informação em diferentes endereços, o que dá uma aparência de que certa história está confirmada por várias fontes. Mas na verdade é um só mentiroso que espalha o mesmo boato em vários canais que ele controla ao mesmo tempo.

5) Pontos de vista

– O texto traz uma variedade de pontos de vista para compreender essas informações?

Se o texto só mostra uma perspectiva, vale a pena procurar outras posições antes de achar que a questão já está resolvida. É preciso também tomar cuidado com a impressão de pluralidade: diversas pessoas diferentes são apresentadas, mas na verdade elas apresentam quase as mesmas opiniões, divergindo muito pouco.

Também não dá para ter um debate e só chamar os dois extremos que se odeiam e não concordam com nada – nesse caso, faltou gradações no meio, menos radicais. Para contrapor de verdade opiniões polêmicas é importante ter várias visões diferentes, e não só uma ou duas.

– As posições essenciais dos envolvidos nessas histórias foram contempladas de forma equilibrada?

É um princípio básico do jornalismo: não dá para ignorar quem é diretamente envolvido na história. Se é uma denúncia, é obrigatório ouvir o lado do acusado, para que ele possa se defender. Se é uma questão que impacta alguns grupos sociais, seus representantes precisam ser escutados.

Interesses econômicos ou políticos precisam ser considerados, mas quem defende uma proposta não pode ter o monopólio da fala (ou seja, ser a única fonte): para manter o equilíbrio, é preciso entender também o ponto de vista de quem se opõe. História com um lado só é propaganda, não é jornalismo.

6) Critérios

– As informações foram contextualizadas?

Só dá para entender um dado, uma história ou um ponto de vista se o meio de comunicação apresentar seu contexto. Sozinho, qualquer número, informação ou ideia pode não fazer sentido algum. Se explicarmos a realidade em que se insere, ou se compararmos com outras situações, o público pode compreender melhor do que se trata.

– O texto explica os critérios que foram adotados para selecionar suas fontes ou interpretar essas informações?

Infelizmente, essa é quase uma questão bônus, porque são poucos os veículos jornalísticos que explicam com transparência como foi feito o trabalho de apuração. Mas em algumas reportagens, em particular, é essencial explicar a coleta e a interpretação dos dados, como no caso das pesquisas de opinião e na análise de estatísticas.

Um texto que diz que metade das pessoas é a favor de certa questão precisa explicar como essa informação surgiu: se poucas pessoas responderam à pesquisa, e se não foram seguidos critérios estatísticos, como no caso dos questionários online, essa informação não tem muita relevância e não pode ser considerada como cientificamente fundamentada.

Jornalismo não é ciência e precisa tomar cuidado com o que faz para “provar” seus argumentos – pode acabar só provando que está tentando nos enganar.

7) Gênero

– Esse veículo deixa claro qual é o espaço de publicidade, informação e opinião?

Para evitar trocar gato por lebre, o público precisa saber claramente qual conteúdo é promoção de produtos, serviços ou propaganda política explícita. Também é importante destacar os espaços próprios para a exposição de opiniões de colunistas, análises e artigos de convidados – que não podem ser confundidas com as reportagens e notícias mais factuais.

– Está claro se esse texto só narra fatos ou abre espaço para as opiniões do autor?

Nada contra opiniões, mas é importante poder separar quando estamos ouvindo uma perspectiva particular, do autor do texto, de quando são narradas somente as informações factuais ou as opiniões das fontes entrevistadas.

8) Responsáveis

– O site apresenta quem são seus responsáveis?

Procure por uma seção que apresente “Quem somos”, “Nossa equipe”, “Expediente”, “Sobre nós” ou algo semelhante. Quem se responsabiliza pelas informações e opiniões publicadas não tem vergonha de se identificar e informar seu endereço real ou telefone de contato.

Se os responsáveis pelo site não se apresentam, eles podem ter alguma coisa para esconder: isso não evita processos, mas é uma grande falta de transparência.

– As pessoas ou instituições ligadas a esse site são conhecidas e têm uma boa reputação?

Uma vez que você descobre quem é responsável pela sua fonte de informação, vale a pena checar se você conhece algum deles. Você pode fazer buscas por meio de ferramentas de pesquisa para ver se essas pessoas estão envolvidas em problemas ou se tem um bom nome a zelar.

Credibilidade é a maior ferramenta para a reputação de um jornalista: é o que faz com que suas fontes aceitem contar suas histórias, porque confiam na seriedade de seu trabalho na hora de traduzir suas vidas em suas palavras. O público também constrói uma relação de confiança com comunicadores quando se acompanham suas histórias e se acostumam a encontrar informações corretas em seus relatos.

Isso não quer dizer que jornalistas menos conhecidos sejam desonestos, só demanda mais cautela na hora de acompanhar seus trabalhos.

9) Contato

– O site está aberto para o contato com o público?

Veículos sem abertura para diálogo com o público podem não estar muito preocupados com contestação, crítica ou até em perceber seus deslizes. Afinal, como alguém vai poder alertar que encontrou algum erro, se não tem canal de diálogo? Pode ser por comentários, formulário de contato, telefone, e-mail ou endereço físico, mas é importante ter uma abertura para que o público possa reclamar se perceber que tem algo errado.

– Os comentários dos leitores são um espaço verdadeiro de diálogo?

Comentários e cartas do público podem ser um mecanismo importante não só para entrar em contato com o jornal: permitem também a formação de uma comunidade de leitores que trocam seus pontos de vista entre si. Alguns bons comunicadores fazem questão de dialogar com seu público – repare o tom adotado entre as partes.

Se o espaço de diálogo for respeitoso e os debates e críticas forem apresentados de forma construtiva, é um sinal que as pessoas não estão escrevendo de cabeça quente, e se preocupam com os melhores argumentos racionais (e não com apelos emotivos, ofensas e ameaças). Isso não quer dizer que todos devem concordar: pelo contrário, os comentários parecerem todos muito semelhantes é um sinal negativo de que você caiu no meio de uma bolha de gente que pensa do mesmo jeito.

Por ser algo muito raro e também fora do controle dos veículos, essa questão não é tão obrigatória, mas é um bom indício de um veículo com uma comunidade diversificada e positivamente integrada.

10) Erros

– Erros são identificados explicitamente? Eles são corrigidos?

Como visto anteriormente, é impossível ter um meio de comunicação sem o risco de cometer erros. Mas o que separa um bom veículo de quem só tenta te enganar é o que eles fazem quando descobrem o erro. Quem se preocupa com a qualidade da informação veiculada vai reconhecer o erro e corrigir a informação.

Em casos de erros mais graves, pode ser necessário se desculpar ao público e aos que sofreram as consequências desse deslize, reparando os danos causados. Casos ainda mais problemáticos podem demandar maior transparência dos veículos, que podem ter que prestar contas para explicar porque esse erro ocorreu e que medidas serão tomadas para evitar que essas falhas se repitam.

Erros assim são momentos de crise, mas podem ser também uma oportunidade para os comunicadores envolvidos se reaproximarem de seu público com humildade para melhorar suas práticas. Já quem não liga para a qualidade da informação que passa para frente (ou quer mesmo te tapear) nunca vai dar o braço a torcer. Pior: pode querer insistir no erro, partindo para a ofensiva ao tentar desacreditar seus críticos com ofensas e ameaças.

– Há canais para a crítica sobre o próprio veículo, como cartas, comentários ou ombudsman?

Além das críticas que vem de fora, bons veículos de comunicação também podem ceder espaço para que convidados de fora ou seus próprios funcionários possam mostrar suas divergências. Isso permite maior abertura para pontos de vista divergentes, e mostra que as abordagens adotadas podem não ser a única escolha, ou muito menos a melhor opção para outras pessoas.

Um dos caminhos é o direito de resposta ou o direito de réplica, quando alguém é acusado ou criticado e tem o direito de defender sua posição. Outro modelo pode ser a publicação de artigos que façam a crítica das posições ou informações veiculadas pelo próprio veículo de comunicação, permitindo ao público tirar suas próprias conclusões.

Infelizmente, poucos meios de comunicação no Brasil tem um responsável próprio por fazer esse trabalho de crítica interna: é o chamado ombudsman, um funcionário pago pelo meio de comunicação para defender os interesses do seu público, apresentando críticas contra o veículo e cobrando correções ou aprimoramentos.

Quem não está nem aí para as críticas, porque sabe que suas publicações não têm a menor qualidade, não vai dar toda essa abertura para contestação, porque no fundo não está preocupado em melhorar suas informações.

FONTES / PARA SABER MAIS

“CRAAP Test”, da Biblioteca Meriam, da Universidade Estadual da Califórnia. [LINK: http://library.csuchico.edu/help/source-or-information-good ]

“Ten questions for fake news detection” – The News Literacy Project [LINKS: http://www.thenewsliteracyproject.org/sites/default/files/GO-TenQuestionsForFakeNewsFINAL.pdf
http://www.courts.ca.gov/documents/BTB24-PreCon2G-3.pdf]

BERTRAND, Claude-Jean. A deontologia das mídias. Bauru: EDUSC, 1999.

BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das letras, 2000.

KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. São Paulo: Ática, 2002.

SODRÉ, Muniz. A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis: Vozes, 2009.

Caramba… foi bem mals
Caramba… foi razoável
Caramba… foi muito bem
Shutterstock

Todo mundo sabe que uma mentira pode causar problemas… Mas quais? Faça o teste e veja se você conhece o que aconteceu depois que essas notícias inverídicas passaram a circular:

1) Bebê Diabo

“Nasceu o Diabo em São Paulo – Bebê com chifres, rabo e falando”.

Essa foi a manchete de capa do Notícias Populares, o mais famoso jornal sensacionalista de São Paulo, no dia 11 de maio de 1975.

A reportagem do jornal deu detalhes sobre o parto e descreveu o bebê como cheio de pelos e portador de dois chifres pontiagudos e um rabo de cinco metros. Além disso, o jornal “apurou” que o bebê-diabo nasceu falando, ameaçou a mãe de morte e deu várias ordens para as enfermeiras.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: b. À época, o Notícias Populares vendia cerca de 70 mil edições por dia. A capa do Bebê Diabo vendeu tanto que, depois dessa edição, outras 26 reportagens sobre a "criança" foram publicadas no jornal - uma delas alcançou 150 mil exemplares.

2) Boimate

A revista New Scientist, publicação norte-americana especializada em artigos científicos, pregou uma peça em seus leitores na edição de 31 de março de 1983, véspera do dia da mentira: inventou uma descoberta científica.

Dizia o artigo que, a partir da fusão das células biológicas de um boi com as de um tomateiro, surgiu o primeiro híbrido de células animais e vegetais.

Seu produto: um tomate “reforçado” com genes de boi que, no futuro, seria capaz de gerar um filé com molho de tomate direto do pé.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: c. Em 23 de abril de 1983, 23 dias depois da publicação original, a Veja publicou o artigo “Fruto da carne”. Um infográfico ilustrava todo o processo descrito em um texto de duas colunas. Os editores da revista não perceberam as ironias contidas na matéria original da New Scientist que embasou a versão brasileira: a descoberta fora descrita como vinda da Universidade de Hamburgo (Hamburg University) e os autores carregavam os sobrenomes McDonald e Wimpey, claras referências às redes de fast-food McDonald’s e Wimpy’s – a primeira ainda não havia se instalado no Brasil e a segunda nunca passou por aqui. O equívoco foi descoberto pelo jornal O Estado de S. Paulo, que em 26 de junho publicou um artigo rechaçando o “boimate”. A retratação oficial, depois de muitas cartas de leitores debochando da publicação, classificou o artigo como um “lastimável equívoco” e foi publicada pela Veja apenas na edição de 6 de julho. Saiba mais.

3) Escola Base

Dois donos e outros quatro funcionários de uma creche paulistana, a Escola Base, são acusados de violentar sexualmente crianças da instituição, todos na faixa dos 4 anos. Não há nenhuma prova contra os seis acusados: a polícia se pauta apenas pelos depoimentos dos pais das crianças supostamente agredidas.

Ainda que não haja nenhuma evidência de abuso na escola e ainda que os acusados não tenham sido sequer convocados a prestar depoimento, o delegado responsável pelo caso espalha para a imprensa a versão de que o escândalo já tem os seus culpados.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: b. O caso, ocorrido em 1994, marca um dos maiores equívocos da história do noticiário policial. Grandes veículos como a TV Globo e os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo conduziram a apuração de forma sensacionalista. A Escola Base e as casas de alguns dos envolvidos foram destruídas pela população, revoltada com o escabroso caso de abuso infantil. Foram necessários cerca de dois meses para comprovar a inocência dos acusados – finalmente admitida pelos jornais. Posteriormente, mais de uma dezena de veículos de imprensa foi condenada a indenizar os difamados durante os dias de cobertura.

4) O Brasil vendeu a Copa do Mundo de 1998

Um email começa a se espalhar meses após a derrota do Brasil na final da Copa do Mundo de 1998. O conteúdo é supostamente baseado em investigações de grandes veículos de imprensa do mundo (como o The Wall Street Journal, o Corriere dello Sport e a revista Veja). O texto, assinado por um suposto diretor de jornalismo da Globo chamado Gunther Schweitzer, dá detalhes e valores da negociação envolvendo a CBF, a Nike e a Fifa para que a Seleção Brasileira perdesse a final para a França, sede daquele mundial.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: a O email entrou para o extenso rol de correntes conspiratórias que podem ser encontradas na internet. Jamais jornal algum, pelo menos dentre os mais famosos, se dedicou a investigar a evidente notícia falsa. Ainda assim, o texto volta e meia reaparece e segue sendo compartilhado exaustivamente nas redes. O texto é rigorosamente o mesmo. Muda apenas o caso e as personagens envolvidas: a inédita Libertadores vencida pelo Corinthians em 2012 e os 7 x 1 da Alemanha para cima do Brasil em 2014 foram alguns dos novos alvos das “investigações” (inexistentes, é claro) de Gunther Schweitzer.

5) Entrevista exclusiva com membros do PCC

Em 7 de setembro de 2003 o Domingo Legal, do SBT, exibiu uma entrevista com dois supostos integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC. Esses integrantes ameaçavam na entrevista figuras conhecidas, como os apresentadores Marcelo Rezende e José Luiz Datena, além do então vice-prefeito de São Paulo, Hélio Bicudo. Tratava-se, na verdade, de uma farsa: a produção do programa pagou dois homens para interpretarem os criminosos na entrevista feita dentro do estacionamento do SBT.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta correta: c. Um dia depois da entrevista, o apresentador Marcelo Rezende, um dos alvos, afirmou que o material era uma "mentira encenada". Posteriormente, o mesmo Rezende levaria ao ar um verdadeiro líder do PCC que, por telefone, garantiu que aquela era uma armação comandada por Gugu Liberato, apresentador do Domingo Legal. Gugu tentou sustentar a versão de que o conteúdo era real. Mas, 10 dias depois da matéria ter ido ao ar, a Polícia Civil confirmou que tudo foi armado – o que logo em seguida seria admitido por um dos atores. Além dos processos sofridos pela produção e pelo próprio Gugu, o programa chegou a ser retirado do ar por apologia ao crime.

6) News of the World

Com uma rede de grampos ilegais montada para auxiliar na cobertura sensacionalista de fatos marcantes no Reino Unido, o jornal News of the World consegue interceptar a linha telefônica de Milly Dowler, uma garota de 13 anos que estava desaparecida. A menina já estava morta quando o jornal conseguiu interceptar sua linha – prática que era comum entre os editores em casos policiais de grande repercussão. Assim, o jornal continuou explorando o caso exaustivamente.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: a. O caso foi explorado exaustivamente pelo jornal em 2002. A caixa postal do telefone de Milly Dowler era acessada com frequência porque o jornal a invadia constantemente em busca de informações. Esses acessos à caixa postal fizeram crescer a possibilidade de que ela ainda poderia estar viva, criando uma falsa esperança na família e mantendo as investigações da polícia até que o corpo fosse encontrado, seis meses depois. A farsa do News of the World foi descoberta em 2011, nove anos mais tarde, junto da descoberta do próprio esquema de grampos ilegais que chegou a outros casos policiais famosos e também a celebridades britânicas. A Polícia classificou a interceptação como "inaceitável" e o jornal passou a enfrentar uma crise que levou ao seu fechamento.

7) Enrico Cabrito

Jovens gaúchos resolveram fazer uma brincadeira na internet em 2013: inventaram um jogador argentino chamado Enrico Cabrito e espalharam em seus perfis no Twitter que ele seria o novo reforço do Grêmio para a temporada.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: a. Os tweets que anunciavam a contratação rapidamente viralizaram na internet. O primeiro jornalista renomado a cair na farsa foi Farid Germano Filho, da Rádio GreNal, que publicou a informação em seu Twitter. No dia seguinte, foi a vez do narrador Paulo Brito dar detalhes sobre a negociação no Jornal do Almoço da RBS TV, afiliada da Globo no Rio Grande do Sul.

8) Lulinha dono da Friboi

O boato passou a circular no Whatsapp e por email a partir do crescimento da Friboi no mercado de carnes do Brasil. A notícia apontava Lulinha, um dos filhos do ex-presidente Lula, como o acionista majoritário do grupo. A notícia foi se alimentando a partir dela mesma ao longo dos anos: frequentemente voltava, quase sempre anunciando que o escândalo enfim seria revelado em breve por alguma revista ou por alguma rede de TV.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: b. Não serviu para eliminar o boato, mas ao menos foi uma negativa oficial: o grupo JBS divulgou nota à imprensa onde negava a informação de que Lulinha integrava o seu quadro societário majoritário. A empresa divulgou ainda a sua lista de sócios para que esta pudesse ser consultada e para que fosse comprovado que a notícia não era verídica.

9) Magia Negra

Uma página chamada “Guarujá Alerta” divulgou um relato denunciando uma mulher que seria responsável por sequestrar crianças para rituais de magia negra. O texto vinha acompanhado de um retrato falado da suspeita.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: b. A notícia falsa custou a vida de Fabiane Maria de Jesus. Um vídeo mostrou os moradores do bairro interrogando Fabiane entre uma série de agressões. Sem conseguir provar sua inocência diante da multidão revoltada, ela foi agredida até a morte.

10) Yousseff envenenado

Na véspera do 2º turno das eleições presidenciais de 2014, uma corrente de Whatsapp trazia reportagem que informava: o doleiro Alberto Yousseff, delator da Lava-Jato, fora morto por envenenamento na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.

O que aconteceu?

Correto!

Errado!

Resposta certa: c. De fato, Yousseff estava internado em um hospital de Curitiba. No entanto, seu quadro era estável de acordo com um boletim médico divulgado na manhã de domingo. Mas depois de os falsificadores forjarem uma imagem da página do G1, a notícia viralizou. A família veio a público dizer que ele estava OK, bem como a Polícia Federal e o Ministério da Justiça. Não adiantou. É um dos maiores casos que usaram o viés de confirmação para manipular. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, apressou-se em classificar o boato como "deplorável" em um evento oficial realizado no domingo, dia da eleição.
Caramba… foi bem mals
Caramba… foi razoável
Caramba… foi muito bem

O que acontece com quem é vítima da propagação de boatos? Neste vídeo, o ator Wagner Moura dá seu depoimento exclusivo, contando como essas mentiras afetaram sua vida. Ele também alerta para o risco dos vídeos falsos que podem ser feitos por qualquer pessoa, e podem arruinar reputações.

Caramba… foi bem mals
Caramba… foi razoável
Caramba… foi muito bem
Andrea C. Fi

Quem nasceu após a popularização da internet tem até dificuldade de imaginar o que era redigir uma reportagem em máquina de escrever, passar para a gráfica, que escolhia manualmente as letras ou fazia um molde em chumbo, depois imprimia  em papel em grandes rotativas para, a partir dali, mandar por caminhão, kombi, avião, trem ou barco para seus leitores. É um esquema industrial, que ainda funciona, apesar de ser cada vez menor, e envolve departamentos especializados em publicidade, marketing, venda de assinaturas.

Isso para textos e fotos, hoje acessíveis instantaneamente após serem produzidos e postados no outro lado do mundo. Imagine sua vida sem os vídeos do YouTube, Snapchat, Instagram e Facebook.

Duro lembrar que, há poucos anos, só podia transmitir imagem e som quem detinha outra milionária operação industrial, com veículos dotados de links para transmissão ao vivo, câmeras caríssimas, antenas mais caras ainda, estúdios, iluminação. Hoje, de forma modesta, a lógica de tudo isso cabe em um smartphone.

Essa conversa pode parecer de tio velho maravilhado com a tecnologia, mas não dá para pensarmos a transformação do debate público e da formação da opinião sem começar pela revolução tecnológica pela qual ainda estamos passando.

Se você acha isso bobagem, lembre-se que o desenvolvimento da prensa de tipos móveis por Gutenberg, na Alemanha do século 15, e a consequente popularização de livros e impressos, foi fundamental para a Revolução Protestante. O papel de jornais e panfletos, barateados pelo aprimoramento dessa mesma imprensa, também foi extremamente importantes na Revolução Francesa, nas Revoluções Burguesas e na Revolução Industrial. O mesmo é válido para a invenção do telégrafo, do rádio, da TV.

A internet removeu o jornalista dos veículos tradicionais da posição privilegiada de mediador de informação na sociedade. Não que grandes jornais, rádios e TVs fizessem isso sozinhos, sem concorrência. Mas devido ao alto custo de produzir e fazer circular informação antes da rede, apenas algumas empresas de comunicação contavam com os recursos financeiros e os meios técnicos para tanto.

O resultado disso é que o grosso da população tinha acesso a algumas poucas fontes de informação. E, normalmente, por meios eletrônicos – como TVs e rádios – cuja programação aberta não precisa ser paga diretamente pelo consumidor. Nesse contexto, como a sociedade brasileira nunca contou com políticas públicas para garantir que a pluralidade dos pontos de vista tivesse acesso a veículos de comunicação para se fazerem vistos e ouvidos, nossa democracia seguiu capenga no quesito direito à comunicação. Grupos no poder que compartilhavam do mesmo ponto de vista dos donos das empresas de comunicação mutuamente se perpetuaram pela reprodução apenas poucas vozes.

Dessa forma, a agenda do debate e das prioridades públicas eram definidas por poucas cabeças.

Se você discordava da opinião de um editorial de um veículo de comunicação ou percebia que havia uma informação incorreta sendo passada adiante, o que podia fazer era escrever uma carta, torcer para que ela chegasse e, semanas depois, caso o veículo a publicasse, sua posição se faria conhecida. Pior ainda: se o veículo decidisse que não era de seu interesse publicá-la, pois ela mostrava que ele também erra ou tem seus interesses, reinava o silêncio.

A partir do momento em que foram disponibilizadas formas de comunicação em massa e em tempo real através da rede, a informação, que passava quase sempre pelo filtro dos veículos de comunicação e de seus profissionais, passou a fluir diretamente da sociedade para a sociedade. O custo para difusão de conteúdo caiu vertiginosamente. Milhões de veículos pequenos, alternativos, independentes (qualquer que seja o nome que se dê para essa mídia) se fortalecessem ou surgissem, permitindo que a voz antes desconhecida ou calada se fizesse ouvir.

Isso não tornou o jornalismo tradicional desnecessário, pelo contrário. Ele continua com a função de reportar, ganhando também as de analisar, escolher e oferecer ao consumidor conteúdo que está circulando e checar informações, oferecendo curadoria. Mas esses papeis não ficariam mais na mão de algumas poucas empresas, mas poderiam ser desempenhados por qualquer pessoa ou grupo. Para o bem e para o mal, como podemos notar neste curso.

Mas, importante ressaltar, que os ganhos com a popularização de veículos na internet ainda superam – de longe – as perdas.

Pessoas e grupos especializados em determinados temas passaram a construir sites, páginas e canais para dialogar diretamente com públicos específicos. Há pequenos e médios veículos voltados ao ensino de história, a games, moda e maquiagem, mecânica, da mesma forma que há aqueles criados para divulgar notícias e opiniões sobre política, economia, cultura. Há milhões falando para bilhões.

Com isso, declarações de políticos, empresários e de figuras públicas passaram a ser contestadas em tempo real. Mesmo reportagens de veículos tradicionais acostumadas a não serem checadas são interpeladas ao vivo por esses sites, páginas e canais. Tudo isso está mudando a forma como o jornalismo tradicional e a política se portam diante da esfera pública. Pois uma grande reportagem pode ser questionada por alguém portando um celular e uma conta no Twitter.

Novamente, para bem e para mal. Pois nem sempre a intenção é boa.

Essa mídia de pequeno porte, alternativa, independente tornou-se parte do arquipélago midiático que nos fornece informação diariamente. Grande parte da população continua se informando pelo Jornal Nacional, da TV Globo. Mas ele foi perdendo audiência ao mesmo tempo em que o consumo de conteúdo via redes sociais foi crescendo, como você está vendo neste curso.

Esse arquipélago ainda é formado por grandes ilhas, como o próprio JN, e alguns jornais, revistas e portais da internet pertencentes a grandes empresas. Mas também conta com ilhas médias, a exemplo de sites, páginas e canais alternativos. E ilhotas – como blogueiros independentes que produzem seu conteúdo sozinhos, atingindo muita gente interessada em seu conhecimento específico sobre um tema.

As fontes de informação nunca se restringiram apenas aos grandes veículos, mas agora temos acesso às outras. Com isso, a checagem de informação pode não ser feita apenas pela mídia tradicional e pelas agências de checagem, mas pela ação diária desse arquipélago de conteúdo. Pois sua produção diária garante novas versões para a realidade que, antes, não conseguiam vencer a barreira da limitação técnica e financeira.

Por fim, da mesma forma que veículos tradicionais e corporativos erram, veículos alternativos e independentes também. Ou seja, os cuidados que você aprende aqui vale para todas as fontes de informação – de notícias que chegam via WhatsApp até a matéria que você assiste na TV. Algum nível de desconfiança, não de cinismo, deve ser sempre mantido.

Saber que tudo pode ser questionado por qualquer pessoa pode ser assustador para uns. E maravilhoso para outros. De qualquer forma, é uma realidade que vai apenas se aprofundar. Novas vozes vieram para ficar no debate público brasileiro e estão ajudando a definir o que entendemos por verdade e por mentira. Então, aprendamos a lidar com isso ao invés de ignorar.

Fontes / Para saber mais

BRIGGS, Asa e BURKE, Peter. Uma História Social da Mídia: de Gutenberg a Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

Caramba… foi bem mals
Caramba… foi razoável
Caramba… foi muito bem

Faça o curso completo

@2018 Vaza, Falsiane